ISTs em mulheres lésbicas e bissexuais

Por serem silenciosas, as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) são mais comuns do que se imagina. Algumas não se manifestam visivelmente e seus sintomas podem passar despercebidos pela maioria das pessoas. A principal recomendação para frear o contágio é o uso de preservativos e testagem em caso de exposição. Mas, quando não há preservativo próprio ou falta informação de confiança, como proceder?

Este é o cenário de mulheres que se relacionam com mulheres, sejam elas lésbicas ou bissexuais. Por sofrerem preconceito, o atendimento de saúde voltado para essa população ainda é muito falho e não existem recomendações claras ou métodos que evitem o contágio de ISTs durante as relações sexuais.

Cenário brasileiro

Dados publicados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde alertam para uma alta no número de ISTs no Brasil. Apenas em 2019, cerca de 1 milhão de pessoas (0,6% da população) afirmaram ter contraído esse tipo de doença.

As ISTs são infecções ou doenças causadas por vírus, bactérias e outros microorganismos. A transmissão ocorre principalmente por contato sexual (vaginal, oral ou anal) com alguém infectado sem o uso de preservativos masculinos ou femininos.

O aumento no número de casos está diretamente associado ao chamado comportamento de risco (exposição sem camisinha) e à falha na educação sexual entre jovens. Ainda segundo a pesquisa, somente 22,8% dos entrevistados usaram preservativo em todas as relações sexuais no último ano. 17,1% afirmaram usar às vezes e 59,0% em nenhuma vez.

Entre as mulheres os casos são ainda mais alarmantes. Enquanto campanhas e preservativos são pensados para o público heterossexual, as mulheres que se relacionam com mulheres recebem pouca ou nenhuma informação a respeito do tema e sofrem com o descaso nos atendimentos de saúde.

“Quando falamos de ISTs em mulheres lésbicas e bissexuais, precisamos levar em consideração o contexto da sociedade em que vivemos. Infelizmente, em grande parte dos serviços, essas mulheres são negligenciadas pelo preconceito e despreparo social no cuidado com o público LGBTQIA+”, aponta Ewerton Mafra, enfermeiro do Clude.

ISTs mais comuns

Sífilis

Causada pela bactéria Treponema pallidum, é uma infecção curável e exclusiva do ser humano. Pode apresentar várias manifestações clínicas e diferentes estágios (sífilis primária, secundária, latente e terciária). Nos estágios primário e secundário da infecção, a possibilidade de transmissão é maior. 

Sífilis primária

Ferida, geralmente única, no local de entrada da bactéria (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca, ou outros locais da pele), que aparece entre 10 e 90 dias após o contágio. Essa lesão é rica em bactérias e é chamada de “cancro duro”. Normalmente, ela não dói, não coça, não arde e não tem pus, podendo estar acompanhada de ínguas (caroços) na virilha. Essa ferida desaparece sozinha, independentemente de tratamento.

Sífilis secundária

Os sinais e sintomas aparecem entre seis semanas e seis meses do aparecimento e cicatrização da ferida inicial. Podem surgir manchas no corpo, que geralmente não coçam, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés. Essas lesões são ricas em bactérias. Pode ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça, ínguas pelo corpo. As manchas desaparecem em algumas semanas, independentemente de tratamento, trazendo a falsa impressão de cura.

Sífilis latente – fase assintomática

Não aparecem sinais ou sintomas. É dividida em: latente recente (até um ano de infecção) e latente tardia (mais de um ano de infecção). A duração dessa fase é variável, podendo ser interrompida pelo surgimento de sinais e sintomas da forma secundária ou terciária.

Sífilis terciária

Pode surgir entre 1 e 40 anos após o início da infecção. Costuma apresentar sinais e sintomas, principalmente lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte.

Gonorreia e infecção por clamídia

Causadas por bactérias (Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis, respectivamente), na maioria das vezes estão associadas, causando a infecção que atinge os órgãos genitais, a garganta e os olhos. Os sintomas mais frequentes causados por essas infecções são corrimento vaginal com dor no baixo ventre. No entanto, é muito comum que as infecções causadas por essas bactérias sejam assintomáticas na maioria dos casos. A falta de sintomas leva as mulheres a não procurarem tratamento para essas infecções, as quais podem se agravar quando não tratadas, causando Doença Inflamatória Pélvica (DIP), infertilidade, dor durante as relações sexuais, gravidez nas trompas, entre outros danos à saúde.

HPV

O HPV (sigla em inglês para Papilomavírus Humano) é um vírus que infecta a pele ou mucosas (oral, genital ou anal) das pessoas, provocando verrugas anogenitais (na região genital e ânus) e câncer, a depender do tipo de vírus. Leva-se entre 2 meses ou até 20 anos para que a infecção se manifeste. A presença do vírus induz o organismo a sofrer uma queda na sua resistência e pode promover o aparecimento de lesões classificadas em clínicas e subclínicas.

As feridas clínicas, na maioria casos, representam um HPV não cancerígeno. São verrugas visíveis e localizadas nas regiões genitais com formatos e tamanhos diferentes, podendo ser em relevo ou não. Já as lesões subclínicas são invisíveis a olho nu e assintomáticas, representando, em sua maioria, uma infecção cancerígena.

Prevenção

Apesar de não existirem preservativos próprios para evitar a transmissão de ISTs entre mulheres, os métodos mais utilizados para tornar a prática sexual mais segura são: o uso de camisinha masculina e feminina, luvas e o uso do dental dam, material utilizado no ato sexual como barreira da mucosa oral-vaginal e/ou vaginal-vaginal, sendo eficaz ao combate das ISTs.

Segundo Ewerton Mafra, “a educação em saúde deve ser mantida e sempre discutida com cada indivíduo separadamente, tendo em vista todo contexto em que está inserido e qual método deverá ser escolhido”. Além dos métodos, é fundamental que as mulheres busquem acompanhamento ginecológico regular e mantenham os exames em dia para a rastreabilidade das infecções sexualmente transmissíveis e testagem sorológica.

Outros pontos importantes além de preservativos e exames são destacados pelo Ministério da Saúde, como: 

  • Imunizar para hepatite A (HAV), hepatite B (HBV) e HPV;
  • Discutir com a(s) parceria(s) sobre testagem para HIV e outras IST;
  • Testar regularmente para HIV e outras IST;
  • Tratar todas as pessoas vivendo com HIV – PVHIV (Tratamento como Prevenção e I=I1);
  • Realizar exame preventivo de câncer de colo do útero (colpocitologia oncótica);
  • Realizar Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), quando indicado;
  • Conhecer e ter acesso à anticoncepção e concepção;
  • Realizar Profilaxia Pós-Exposição (PEP), quando indicado.

Transmissão

“A transmissão existe e está presente na vida de várias pessoas, ora assintomática ou não, precisam ser tratadas individualmente, olhando para todo o contexto sexual e não apenas para a doença em si. Sabemos que a transmissão de HIV, hepatite B e C são baixas em mulheres que se relacionam com mulheres, porém existe a clamídia, sífilis, gonorréia dentre outras que podem ser facilmente transmitidas por contato de pele e mucosas, troca de sangue e fluidos e/ou compartilhamentos de acessórios sexuais”, alerta Ewerton Mafra.

Diagnóstico

De acordo com dados oficiais do Ministério da Saúde, as ISTs podem se manifestar por meio de feridas, corrimentos e verrugas anogenitais, entre outros possíveis sintomas, como dor pélvica, ardência ao urinar, lesões de pele e aumento de ínguas. São eles:

Corrimentos

Aparecem no pênis, vagina ou ânus e podem ser esbranquiçados, esverdeados ou amarelados, dependendo da IST. Podem ter cheiro forte e/ou causar coceira, provocam dor ao urinar ou durante a relação sexual. Nas mulheres, quando é pouco, o corrimento só é visto em exames ginecológicos. Podem se manifestar na gonorreia, clamídia e tricomoníase. Importante: o corrimento vaginal é um sintoma muito comum e existem várias causas de corrimento que não são consideradas IST, como a vaginose bacteriana e a candidíase vaginal.

Feridas

Aparecem nos órgãos genitais ou em qualquer parte do corpo, com ou sem dor. Os tipos de feridas são muito variados e podem se apresentar como vesículas, úlceras e manchas, entre outros. Podem ser manifestações da sífilis, herpes genital, cancroide (cancro mole), donovanose e linfogranuloma venéreo.

Verrugas anogenitais

São causadas pelo Papilomavírus Humano (HPV) e podem aparecer em forma de couve-flor, quando a infecção está em estágio avançado. Em geral, não doem, mas pode ocorrer irritação ou coceira.

Tratamento

O tratamento para as Infecções Sexualmente Transmissíveis varia de acordo com cada agente infeccioso. A intervenção médica facilita a vida do infectado e pode alterar a corrente de transmissão dos microrganismos. A prevenção ainda é a melhor forma para combater as ISTs. Dentre as recomendações, destaca-se o uso contínuo de preservativos durante o ato sexual, além de testagens regulares a fim de detectar a presença de patógenos. 

O autoexame também passa a ser uma alternativa para início dos tratamentos. A presença de verrugas, lesões, corrimentos, dores na região íntima ou durante o ato sexual são indicativos de infecção por ISTs e devem receber uma análise médica o quanto antes. 

*Atenção: As informações existentes no Blog do Clude pretendem apoiar e informar, não substituindo a consulta médica. Procure sempre uma avaliação pessoal.

Deixe um comentário

Durante muito tempo, a saúde mental no trabalho foi tratada por muitas empresas como uma pauta de conscientização, clima ou apoio pontual.

Em paralelo, a NR1 era vista, em grande parte, como um tema de compliance: algo a ser acompanhado pelo olhar técnico, documentado dentro dos processos e tratado como exigência regulatória.

Mas esse enquadramento já não dá conta da realidade.

Quando os riscos psicossociais passam a entrar de forma mais explícita na gestão de riscos ocupacionais, o tema deixa de ser apenas uma obrigação trabalhista e passa a tocar diretamente aquilo que a liderança sente na operação: afastamentos, queda de produtividade, turnover, desgaste de lideranças, clima organizacional e continuidade do negócio.

Em outras palavras, o que antes parecia um tema periférico agora entra no centro da gestão.

A discussão deixou de ser apenas normativa

Quando se fala em saúde mental no trabalho, ainda é comum que o debate fique preso a dois extremos: de um lado, o discurso institucional sobre bem-estar; de outro, a preocupação com conformidade.

Só que a realidade das empresas acontece no meio disso tudo.

Ela aparece no colaborador que continua trabalhando, mas já perdeu energia, foco e capacidade de decisão. Aparece na liderança sobrecarregada, que passa a gerenciar conflitos recorrentes sem preparo. Aparece no RH pressionado por aumento de afastamentos, pedidos de apoio emocional, dificuldade de retenção e sinais de esgotamento cada vez mais frequentes.

Por isso, uma leitura mais madura da NR1 não começa no documento.

Ela começa em uma pergunta que poucas empresas fazem com profundidade:

quanto custa não enxergar o sofrimento antes que ele vire afastamento, desligamento ou colapso de performance?

O custo invisível já está na operação

Quando a empresa não investe em mapear e reduzir riscos psicossociais, a conta não chega de forma abstrata.

Ela aparece em camadas, muitas vezes silenciosas no início, mas cumulativas ao longo do tempo:

  • mais ausências e incapacidades
  • perda de produtividade silenciosa
  • aumento de turnover em posições críticas
  • desgaste de lideranças
  • piora de clima e segurança psicológica
  • mais pressão sobre RH, SST e gestores

Esse é o ponto central: a ausência mental nem sempre começa no afastamento formal.

Antes disso, ela já pode estar presente na dificuldade de concentração, na queda de engajamento, no aumento dos conflitos, no esvaziamento emocional e na perda gradual de potência das equipes.

E, quando isso não é tratado com método, o impacto ultrapassa a esfera humana e entra diretamente no orçamento da operação.

Os números ajudam a explicar por quê

Os dados reforçam que esse não é um tema subjetivo demais para ser gerido. Pelo contrário.

Só em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais no Brasil, uma alta de 15,66% em relação a 2024. Ansiedade e episódios depressivos lideraram as concessões.

No cenário global, a OMS estima que 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos todos os anos por depressão e ansiedade, com um custo de US$ 1 trilhão em produtividade.

Esses números ajudam a tirar a pauta do campo da percepção e colocá-la onde ela precisa estar: no campo da gestão, do risco e da sustentabilidade do negócio.

Reduzir riscos psicossociais não é só uma agenda de bem-estar

Esse talvez seja um dos principais pontos de virada para as empresas.

Durante muito tempo, iniciativas relacionadas à saúde mental ficaram concentradas em campanhas, ações de comunicação e esforços importantes de conscientização. Tudo isso tem valor, mas já não basta sozinho.

Porque reduzir riscos psicossociais não é apenas promover uma agenda de bem-estar.

É estruturar uma agenda de gestão, prevenção e sustentabilidade da operação.

A própria lógica da NR1 aponta nessa direção: identificar perigos, avaliar riscos, definir medidas de prevenção, acompanhar controles e envolver trabalhadores no processo. Quando o assunto são fatores psicossociais relacionados ao trabalho, isso exige muito mais do que ações pontuais.

Exige leitura de contexto, capacidade de diagnóstico, escuta estruturada, acompanhamento contínuo e decisões orientadas por evidências.

Em resumo: exige método.

O que empresas mais preparadas já entenderam

As empresas mais preparadas não estão mais tratando saúde mental apenas como tema de sensibilização.

Elas estão transformando isso em uma frente mais estruturada de gestão, com ações como:

  • leitura de clima e segurança psicológica
  • visibilidade sobre sinais de sobrecarga, assédio, conflito e exaustão
  • indicadores que apoiem a tomada de decisão da liderança
  • canais confiáveis de escuta e denúncia
  • plano de ação com monitoramento contínuo

Essa mudança de postura é importante porque ajuda a empresa a sair do reativo.

Em vez de agir apenas quando o problema escala, ela passa a construir mecanismos para identificar sinais antes, priorizar ações e oferecer caminhos de cuidado com mais consistência.

Onde essa conversa encontra a prática

É justamente nesse ponto que muitas empresas travam.

Elas entendem a urgência do tema, reconhecem os impactos no negócio, mas têm dificuldade para transformar preocupação em jornada estruturada.

E essa é uma transição importante: sair da intenção e ir para a prática.

Na Clude Saúde, essa construção passa por uma abordagem que integra saúde emocional e saúde digital de forma mais contínua, acessível e conectada à realidade das empresas.

Isso envolve frentes como pesquisa de clima organizacional, dashboard para tomada de decisão, canal de denúncias, adequação normativa e suporte contínuo ao colaborador. Também envolve recursos de acompanhamento mais próximo, com monitoramento ativo, chat com psicólogos, avaliações periódicas de ansiedade, estresse e burnout, além de ferramentas de apoio à rotina emocional.

Na prática, isso significa não esperar o problema escalar para então agir.

Significa criar estrutura para identificar sinais antes, acompanhar casos com mais proximidade e ampliar o acesso ao cuidado de forma simples e viável para a operação.

A pergunta que a liderança precisa responder

No fim, talvez a principal contribuição dessa nova fase da discussão seja esta:

a pergunta que a NR1 está trazendo para dentro das empresas não é apenas “estamos em conformidade?”

É também:

“quanto o nosso modelo de trabalho está custando para a saúde das pessoas, e para o resultado do negócio?”

Porque quando a saúde mental entra no radar da gestão de risco, ela deixa de ser um tema periférico.

E passa a ser tema de orçamento, liderança e performance.

Sua empresa já começou a medir o custo de não investir em prevenção e saúde emocional no trabalho?

Se esse tema já está na pauta de RH, SST ou liderança por aí, vale a conversa.

A Clude Saúde vem estruturando essa jornada com empresas por meio de uma abordagem que une diagnóstico, monitoramento e acesso ao cuidado em um ecossistema digital de saúde.

Deixe um comentário